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24 de mar. de 2012

Freiheit, de George Lucas


Antes de ficar famoso e ganhar milhões com a saga Star Wars (e, também, antes de se dedicar exclusivamente a ela), George Lucas era um cineasta que se encaixava dentro da onda da Nova Hollywood do começo dos anos 70 (e não na dos blockbuster do fim desta mesma década), realizando obras pequenas (e muito legais) como "American Graffitti - Loucuras de Verão". Freiheit é a primeira produção com Lucas atrás das câmeras, um curta de apenas 3 minutos, realizado em 1966. Trata de uma espécie de libelo anti-bélico e idealista, e que realmente não é de tanta qualidade, mas vale como um objeto de curiosidade. Está disponível no you tube:

9 de mar. de 2012

"Vinil Verde", de Kléber Mendonça Filho

Este é o primeiro curta do cineasta (e também crítico de cinema, mais conhecido pelo site Cinemascópio), vencedor de prêmios no Festival de Brasília e selecionado pela Quinzena dos Realizadores em Cannes. "Vinil Verde" é visivelmente inspirado nas técnicas utilizadas por Chris Marker em seu clássico curta-metragem "Le Jetée" (talvez o maior dos filmes de curta duração) para narrar uma espécie de conto de horror infantil: uma criança recebe de sua mãe uma caixa de discos, mas a garota é proibida de ouvir o vinil verde. O ritmo mais calmo, aquele das cantigas de criança, do quarto cheio de bonecas e do canto dos passarinhos do lado de fora do apartamento, lentamente vai ganhando contornos obscuros (a narração, sóbria e pausada, ajuda muito) na medida em que a doçura da infância vai se diluindo na curiosidade de um universo desconhecido. Kléber Mendonça tem outros curtas prestigiados e que merecem ser conferidos, como "Eletrodoméstica" e "Recife Frio", e, no momento, está preparando seu primeiro longa-metragem, que irá se chamar "O Som ao Redor".

Confira o curta no youtube:


Obs.: O que está disponível no youtube não tem muita qualidade, caso queira vê-lo no vimeo ele é bem melhor http://vimeo.com/10024257)

2 de mar. de 2012

Adágio (2000), de Garri Bardin


Entrando na onda de filmes em stop-motion que a Filmes Z recentemente adentrou (com o curta-metragem Wurms), venho aqui falar sobre um dos grandes exemplares desta técnica, o curta Adágio, do russo Garri Bardin, realizado em 2000. O ritmo é extremamente solene e a trama se desenrola elaborando uma áspera crítica social, à nossa incapacidade de conviver com diferenças e nossa tendência à uniformizar e padronizar, bem como pode servir como uma metáfora ao cristianismo e à cegueira comumente atribuída pelos seus seguidores. Ao contrário dos curtas de outro mestre do stop-motion, Jan Svankmajer, Adágio não é feito, por exemplo, com a utilização de massa de modelar, e sim, curiosamente, com origamis. Vale ver!

17 de fev. de 2012

"Film di Samuel Beckett", de Alan Schneider




"Film" marca a primeira colaboração do escritor Samuel Beckett, um dos mais festejados do século XX, com a 7ª arte, escrevendo o texto para este curta dirigido por Alan Scheneider e estrelado por ninguém menos que Buster Keaton, o famoso ator e diretor de cinema mudo. Antes de tudo, é bom atentar para a inteligente escolha de Keaton, que, como outros astros dos anos 20, foram renegados ao ostracismo com o advento do cinema falado. O seu "concorrente", Charles Chaplin, se deu melhor, e conseguiu permanecer no topo; o por quê de um cineasta a sua altura como Keaton não ter tido melhor sorte só o sistema traiçoeiro de Hollywood explica, mas é curioso como o diretor de clássicas obras como "A General" meio que se tornou uma presença espectral durante os anos posteriores de Hollywood (talvez por ser um excelente símbolo de como em Hollywood qualquer talento pode ser extremamente fugaz). Ele fez, por exemplo, uma aparição em "Crepúsculo dos Deuses", obra-prima de Billy Wilder, além de "Film", que, ironicamente, é mudo. O personagem de Keaton parece ser alguém já privado da fala ou da mais rele comunicação com o outro, e caminha para uma total alienação de sua própria existência (afinal, só se sabe que existe quando nos vemos ou somos vistos por outro), um homem que parece desesperado para escapar da própria consciência (um personagem típico de Beckett, aliás). É uma experiência cinematográfica muito interessante e que merece ser vista.

10 de fev. de 2012

The Big Shave, de Martin Scorsese



O ano de 1967 seria decisivo para a indústria hollywoodiana. No segundo semestre daquele ano foi lançado o filme "Bonnie e Clyde", de Arthur Penn (estrelado - e ideliazado também, na verdade - por Warren Beatty), marcava o início da era da Nova Hollywood, marcada pela decadência da onipotência dos produtores e dos grandes estúdios, e uma abertura para que o diretor passasse a ter total controle da sua obra. Influenciados pela nouvelle vague francesa e pelos movimentos de contracultura, foi nessa época que surgiram para o cinema nomes como Dennis Hopper (seu primeiro filme, Easy Rider - Sem Destino, é sem dúvida dos maiores marcos cinematográficos dos anos 60), Bob Rafelson (produtor de Easy Rider com a BBS, e diretor de filmes como "Cada um Vive como Quer), Robert Altman, Francis Ford Coppola e atores como Jack Nicholson (companheiro das loucuras de Hopper, Rafelson, Peter Fonda e cia.). Entre esses nomes, estava também, obviamente, Martin Scorsese. Este seu curta-metragem, realizado no mesmo ano em que Scorsese realizava seu debut em longas (o ótimo "Quem Bate à Minha Porta"), bebe muito das fontes anteriormente citadas, incluindo uma experiência marcante para os EUA naquela época: a guerra do vietnã. Muitos encaram o curta como uma metáfora a tal conflito e o sentimento auto-destrutivo que o impulsionava. Não darei detalhes quanto à "trama", é mais interessante vê-lo sem saber deles. Veja abaixo:

3 de fev. de 2012

"Pai de Filha", de Michael Dudok de Wit



Nascido em 1953, o holandês Michael Dudok de Wit deve ser um dos mais prestigiados animadores, tendo realizado quatro curtas-metragens, entre eles "Pai e Filha", de 2000, vencedor de prêmios como o Oscar, BAFTA e o ANNECY, importante prêmio francês dedicado exclusivamente à Animação. Conta a história de uma garota que, quando criança, vê seu pai partir, voltando, mesmo com os anos a passarem, ao mesmo local, esperando que seu pai volte. Obviamente, a trama metaforiza a morte, e a tentativa de se lidar com uma perda, que acaba marcando toda a história de uma vida. O desenho de Dudok é minimalista e de tons sóbrios, formalmente de uma sensibilidade tão grande como a trama narrada. O cineasta tem outros curtas muito bons e que valem ser vistos, como "O Aroma do Chá", de 2006, e "O Monge e o Peixe", de 1994.

Confira o curta Pai e Filha

30 de dez. de 2011

"Documentário" (1966), de Rogério Sganzerla



Rogério Sganzerla foi um dos maiores cineastas brasileiros (e, pessoalmente, o meu favorito), idealizando o chamado "Cinema Marginal", juntamente com outros nomes de prestígio, como Andrea Tonacci (diretor do espectaular "Bang Bang") e Ozualdo Candeias (de "A Margem"). Realizador de obras como "O Bandido da Luz Vermelha", "Copacabana Mon Amour" e "Sem Essa, Aranha", Sganzerla infelizmente faleceu precocemente, em 2004, aos 58 anos, vítima de um tumor no cérebro. O cinema de Sganzerla sempre privilegiou uma espécie de estética da inquietude do subdesenvolvimento, de cunho iconoclasta e à frente de seu tempo. Ao mesmo tempo realizava ferrenhas críticas às mazelas sociais tupiniquins, exaltava uma espécie de retorno ao "espírito" brasileiro, mas um retorno antropofágico, nos moldes de um Oswald de Andrade (talvez a maior inspiração de Sganzerla, juntamente com Orson Welles). Era (na verdade, "é", pois, se o criador se vai, a arte fica) um cinema da sujeira e do caos urbano, da "boca do lixo", mas também da extrema experimentação com a linguagem cinematográfica. Um diretor que não só possuia o talento de fazer filmes, como também o desejo.

Falando um pouco mais do curta, "Documentário" foi seu primeiro trabalho atrás das câmeras, realizado em 1966, quando tinha apenas 20 anos (seu primeiro longa, "O Bandido...", seria realizado apenas dois anos depois, aos 22 - um garoto-prodígio, que veio a se tornar mestre). Narra, em 10 minutos, a tarde de dois jovens ociosos no centro de São Paulo, tentando decidir o que fazer ("Precisamos salvar a tarde. Mulher não dá pra pegar, beber cê não tem dinheiro"); falam sobre cinema, fumam, e a trilha sonora de barulho dos carros, que permeiam o cenário. Fica a promessa: "da próxima vez vou fazer tudo diferente".

Está disponível no you tube:

10 de dez. de 2011

Um Pouco Sobre Ryan Larkin



Ryan Larkin tem uma história curiosa: foi "pupilo" de Norman McLaren (curta-metragista experimental e um dos grandes nomes da animação mundial) na National Film Board of Canada, realizando seu primeiro curta em 1965, o ótimo Syrinx (sobre o qual falarei em parágrafos posteriores), quando tinha apenas 22 anos idade, concorrendo ao Oscar quatro anos mais tarde pela primeira vez, com o genial Walking. Em 72, fez inda mais um filme Street Musique, e que foi sua despedida. A partir daí, a carreira de Larkin entrou por água abaixo: largou a NFBC e rendeu-se ao vício do álcool e da cocaína, chegando até mesmo a viver como um sem-teto nas ruas de Montreal.



Em 2004, o outrora promissor animador foi resgatado, se tornando material para um curta-metragem dirigido por Chris Landreth que ganhou bastante repercursão ao vencer o Oscar de Melhor Animação. Todos aqui se apresentam como personagens desfigurados, fazendo quase um retrato da mente degenerada de Larkin. Ao invés de adotar um tom sentimentalista ou sensacionalista, Landreth opta por um caminho menos convencional e previsível (algo que me parece ser típico do cineasta, pelo que pude ver em seus trabalhos anteriores) para se fazer uma biografia, sendo uma obra extremamente criativa e visualmente forte, mas nunca renegando o conteúdo. Um filme que certamente receberia o selo de aprovação por parte de Ryan Larkin.

Quanto à filmografia de Larkin, pude conferir dois de seus curtas, como afirmei no primeiro parágrafo. O primeiro deles, Syrinx, tem seu ponto de partida na mitologia grega; Syrinx representa uma ninfa conhecida pela sua castidade, desejada pelo Deus Grego Pã, e todo o restante da história podemos acompanhar através de imagens inicialmente abstratas, mas que após algum tempo acabam por ganhar formas, em uma atmosfera onírica reforçada pela música de Claude Debussy. O outro, Walking, tem uma idéia simples, mas uma execução que impressiona. Na época, Larkin foi taxado de o "George Harrison ou o Frank Zappa da Animação", o que não me surpreende tanto, já que Walking carrega bastante a psicodelia do período, realçada pela ótima trilha sonora, mostrando os corpos dos personagens em constantes transformações (assim como a própria época em que foi feito), seja em tamanho ou em cores (o próprio "protagonista" tem rosto e corpo indefinidos, em constante mudança).

"Syrinx" (1966) http://www.youtube.com/watch?v=s-rTuq6O9SM

"Walking" (1968) http://www.youtube.com/watch?v=KpE_ETl0S58

18 de nov. de 2011

Di Cavalcanti Di Glauber (1977), de Glauber Rocha



Talvez no meio tempo da elaboração de algum de seus projetos malucos (e excelentes), Glauber Rocha decidiu dar uma passada no funeral de seu amigo Di Cavalcanti, artista plástico vanguardista. Com essa ideia na cabeça, e sua boa e velha câmera na mão, Glauber documentou o evento. O registro aqui feito, como é de se esperar de um cineasta da desestrutura (aquele que fez Terra em Transe e A Idade da Terra), não é formal (e há quem quem julgue desrespeitoso - gerou processos por parte da família Cavalcanti - mas acredito que Di, transgressor, controverso e bem-humorado que era, consideraria uma honrada homenagem): é fragmentado, metalinguístico, recheado com poesia, pinturas e, sem dúvida no momento mais polêmico, até música do Jorge Ben. A atitude de Glauber é questionável, mas não tem como não se calar diante de tão grande cinema.

Está disponível no youtube, em duas partes:

1ª parte

2ª parte

9 de nov. de 2011

The Great Train Robbery (1903), de Edwin S. Porter



Uma bela surpresa esse filme de 10 minutos feito já há mais de 100 anos dirigido por Edwin S. Porter e que é não apenas um dos mais famosos exemplos de bom cinema feito na época em que a 7ª arte ainda engatinhava e um dos primeiros filmes de narrativas ficcionais, como também é o primeiro grande western que se tem notícia (ainda representando a idealização norte-americana do "bem" vencendo o "mal") e dos primeiros a se utilizar de técnicas mais aprimoradas de montagem e movimentação da câmera. A estória é simples e o título já resume muito bem sobre o que The Great Train Robbery é. O melhor de tudo é que a narração segue uma linha extremamente ágil, seca, direta ao ponto, sem nenhuma frescura (além de ser uma estória trágica e violenta e realista, especialmente para os padrões da época). A cena final, no tireoteio, é, aliás, excelente, com um uso realmente perfeito da trilha. O curta está disponível no you tube:

27 de out. de 2011

Invocation of My Demon Brother (1969), de Kenneth Anger



Kenneth Anger é um curta-metragista experimental (trabalhando apenas com filmes de duração reduzida) que ficou conhecido dentro do underground norte-americano, com trabalhos como Scorpio Rising (que foca nas relações entre gangues de motocicleta - que também aparecem no curta aqui comentado, mas apenas de relance), acabando por ser uma expressiva influência dentro da Nova Onde de cinema americano surgido nos anos 70, esta representada por nomes como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola.

"Invocation of My Demon Brother", com 10 minutos de duração e realizado em 1969, explora os temas de obsessão e muito recorrentes na obra de Anger, como o ocultismo, homoerotismo e toques de psicodelia, além dos inúmeros simbolismos apresentados no decorrer da ação e experimentos com a relação entre a imagem e o som (este, aqui, feito pelo rolling stone Mick Jagger), sendo a trilha sonora em seus trabalhos sempre uma peça fundamental. O assunto de "Invocartion..." é vago, mas cenas indicam que estamos presenciando uma espécie de ritual satânico (que contém, ainda, uma bandeira nazista), apresentado a nós com sobreposição de imagens bem como aceleramento delas, técnicas que casam com perfeição com o material tratado: eleva a sensação de estarmos lidando com o incerto, uma matéria inalcançável e que nos escapa colidindo com outras imagens (e o que as une muitas vezes também nos parece distante), às vezes apenas rápidos flashes. Como se não bastasse tudo isso, "Invocation of My Demon Brother" conta com uma participação macabra: a atuação de Bobby Beausoleil (que fez a trilha de um dos mais famosos médias de Anger, Lucifer Rising), um dos membros da Manson Family.

O curta pode ser visto aqui: http://www.youtube.com/watch?v=vBR8b6pCrXA

13 de out. de 2011

Elephant (1989), de Alan Clarke



Muitas vezes, elogia-se um filme por ele "passar voando". Não é incomum, por exemplo,ao término da exibição de um filme, uma pessoa, em tom elogioso, afirmar algo como "ah, nem senti o tempo passar!". A questão é: por que um filme de qualidade teria que desligar-nos do tempo? Por que não o contrário? Elephant, média-metragem de Alan Clarke, faz o contrário. Sua estrutura é rídiga: dividi-se em espécies de "episódios", sempre apresentando a mesma situação; há elementos fixos: a abundância de planos-sequencia, o realce de certos sons (os passos, o barulho do trânsito, e os tiros). Não é o filme do qual diríamos "nem senti o tempo passar", mas aquele do "pensava que não ia acabar nunca". Isto, aqui, não pode ser visto em sentido negativo. Se é dito, em geral, para aqueles filmes em que nos transformam em pacientes crônicos de déficit de atenção, o caso de Elephant, por outro lado é especial: está ligado ao fato de ser uma obra que toca diretamente em emoções desagradáveis, pela situação a que nos expõe incessantemente, assassinatos "aleatórios" e brutais. O que nos choca não apenas por serem atos que causam, já naturalmente, sensações extremas, mas porque Alan Calrke força o espectador a um confronto direto com o objeto observado: as ações da narrativa não apresentam contexto algum, logo não se pode vir a delinear uma trama, muito menos seus "personagens" (entre aspas pois não são envoltos por qualquer arco dramático - não possuem nomes, ou histórias). Não há pontos de referência em Elephant. Comete a covardia de deixar o espectador sem algo para se agarrar, em contato bruto e direto com a imagem. Logo de início, a impressão que se dá é que este média de 40 minutos se estenderá em uma espécie de loop infiinito, daí a sensação de "não acabar nunca". Em Elephant, não há começo, meio ou fim; é, na verdade, uma sucessão de "variações sobre um mesmo tema". Variações que, sim, existem: se há os elementos fixos já ressaltados, de "episódio" para "episódio", há mudanças que, se observadas, podem desestruturar o olhar perante o material filmado, que, num filme como Elephant, é fácil de se se tornar viciado, devido a uma estrutura que segue um fluxo aparentemente imutável. Falo de momentos como aqueles em que a câmera acompanha dois rapazes,que, seguindo a lógica das sequencias anteriores, seriam os assassinos, mas revelam-se vítimas; ou um outro, em que seguimos uma pessoa em um estacionamento, abruptamente abandonada do foco, com a ação depois transcorendo com outros dois personagens que até então não haviam aparecido. Um soco no estômago.

O filme está disponível no youtube em cinco partes. A primeira:

5 de out. de 2011

Window Water Baby Moving (1962, de Stan Brakhage)


Part 1


Part 2



Stan Brakhage talvez seja o nome mais influente do cenário do cinema de vanguarda. Diretor de inúmeros curtas e alguns longas, Brakhage experimentou com diversos mecanismos da linguagem cinematográfica, realizando, por exemplo, filmes abstratos com uma animação feita na própria película (os "hand painted films"). "Window Water Baby Mobing" se encaixa na categoria dos filmes live action do cineasta, sendo uma obra muito característica sua e das mais emocionantes. Neste curta, acompanhamos a filmagem do parto da esposa de Stan, Jane, que dá luz à primeira filha do casal, Myrrena. É um curta que contém tanto momentos explícitos e de choque (como o close na genitália de Jane no momento do nascimento) como outros singelos e extremamente comoventes, como o close na face de Stan ao ver pela primeira vez sua filha. Tudo isto representado em uma narrativa que, não sendo composta por cenas bem definidas, ou uma estrutura linear e reconhecível, é mais formada por flashes, imagens (e imagens apenas - o filme não possui qualquer registro sonoro) que às vezes podem parecer desconexas. É que Brakhage, mesmo filmando um acontecimento real, não tem interesse em realizar um documentário, ou um registro concreto. As imagens de "Window Water...", na verdade, parecem extraídas da memória, pertencentes a uma temporalidade não reconhecida pelo espectador; os flashes de objetos, cenários, mostrados sob rápidos cortes, parecem denotar um fluxo constante de consciência ou mesmo traços mnemônicos de uma experiência inconsciente. Não é um registro lógico, é um registro de emoções; confuso, agoniado, um retrato subjetivo. O cinema experimental pode parecer duro e impenetrável, mas filmes como os de Stan Brakhage, em especial "Window Water Baby Moving", fornecem uma experiência sensória única, um grande estímulo à nossa percepção e às nossas mais profundas emoções.

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28 de set. de 2011

Curta da Semana: Darkness/Light/Darkness, de Jan Svankmajer

Jan Svankmajer é um cineasta tcheco, um dos grandes mestres da animação e da técnica stop motion, sendo o diretor de 7 longas-metragens e diversos curtas, estes realizados desde os anos 60. "Darkness/Light/Darkness", curta de 1989, é dos seus trabalhos mais prestigiados, contendo as principais características que fizeram sua (relativa) fama: a situação absurda, com os dois pés no surrealismo, a visão do lado grotesco do ser humano, além de um humor sardônico. Aqui acompanhamos a construção anatômica de um homem, nos sendo apresentado sua formação partes por partes: as mãos, os pés, a cabeça, o cérebro. Se relaciona com o espectador por meio de sentimentos díspares: assusta ao mesmo tempo que nos faz rir; desconforta, mesmo que não consigamos deixar de assistir. O clímax do curta oferece um resumo da visão de homem de Svankmajer: ao contrário do Homem Vitruviano de Da Vinci, perfeito e completo, o do cineasta tcheco é alguém preso, em situação de perpétuo desconforto, sem ação perante sua própria existência.
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